Por Antônio Xerxenesky
A graça de ter um blog é que não se espera seriedade científica dele. Neste post pretendo problematizar tudo que afirmei em um grito que me tirou o ar dos pulmões no post anterior. Então. Se antes fiz a minha defesa de “videogames são arte”, agora cabe questionar: todo jogo de videogame é arte?
Esse questionamento surge às pencas no mundinho literário. O que é literatura? Apenas contexto, alguns dizem. “Literatura é o que dizem que é”. Se eu colocar um livro onde a única palavra que aparece é “brócolis”, repetida infinitamente, e um crítico achar que isso é arte, que é literatura, logo ele será. Eu penso assim muitas vezes, mas não gosto da idéia. É assustador pensar que não há nada imanente à obra que a defina como arte. Um tempão antes desse lance de “contexto é tudo”, os formalistas russos bolaram o conceito de plurissignificação: literatura se diferencia dos outros usos da palavra escrita por utilizar uma linguagem conotativa que pode render diversos significados. É diferente de uma bula de remédio, que só permite uma interpretação. Ou uma lei. O discurso literário é propositalmente ambíguo.
Entretanto, é possível utilizar conceitos da teoria literária no mundo dos videogames? Eu queria dizer que “até certo ponto sim”, mas acho que não. Então, o que é arte, nos videogames? Pac-man é tão arte quanto Elder Scrolls IV ou Bioshock? É necessário ter uma narrativa? Se julga ele pela estética? Pela interatividade? As perguntas abundam e eu desconheço a resposta para elas. Não obstante, é fundamental que a nova geração de gamers faça, constantemente, essas perguntas. O videogame é uma arte extremamente nova. Ele faz o cinema parecer antigo. E, ainda assim, já foi tão determinante para a cultura. O videogame está mudando a maneira como está sendo feito cinema hoje em dia, e não me refiro apenas às adaptações horríveis (Resident Evil, Tomb Raider), mas sim em termos estéticos (300, do Zack Snyder, nas suas cenas de batalha). O jogo, para o pensador Huizinga, sempre foi fundador da cultura. Além disso, altera a cultura ao moldar o imaginário coletivo da sociedade. Se alguns séculos atrás as pessoas imaginavam o inferno conforme as descrições de Dante na Divina Comédia, hoje (muitos) imaginam a lava borbulhante de Diablo II.
O videogame demonstra ser uma linguagem que veio para ficar e que carece ainda de uma teoria que problematize seu caráter artístico. O que não se pode fazer é dizer que videogames não podem ser arte porque sua principal função é entreter. Se fizermos isso, negaremos o cinema hollywoodiano, e com ele inúmeras obras avassaladoras, como A Felicidade não se Compra, ou Psicose, ou… (convenhamos, não preciso justificar, né?).
No próximo post a problematização continua, com GTA vs. Shadow of the Colossus. Promessa.
http://www.wga.org/awards/awardssub.aspx?id=1516 – olha a categoria lá de baixo…