Textos categorizados 'política'

A escolha do console da nova geração é um ato político

por Antônio Xerxenesky

Sendo este o meu primeiro artigo no blog, cabe definir certas coisas. Boa parte do que escreverei para o site é de teor especulativo, memorial, opinativo ou meramente delirante. Por conseguinte, tudo, exceto fatos concretos linkados (ou até eles), pode ser contestado. Ofensas também serão bem vindas.

Entremos no assunto. É de minha crença que quase todos nossos atos têm conotação ideológica ou política. Até mesmo a neutralidade e a alienação são formas de posicionamento. Comprar videogames sempre foi um ato político. Os “mais velhos”, “os esclarecidos”, sempre julgaram como uma estupidez, pois coisas lúdicas sempre são vistas como instrumentos de alienação dos jovens indefesos. Bom, nem vou gastar tecladas debatendo isso. O que mudou é que na nova geração de videogames há um contraste enorme, e dizer apenas “o garoto comprou um videogame novo” não adentra a profunda problemática que se apresenta. O gamer interessado em adquirir um console será posto em um dilema ideológico.

Playstation 3, Xbox360 ou Wii. De um lado do ringue, em um dos extremos, está o bichano da Sony, um monstro escuro, com um processador e uma placa de vídeo que deixa meu amável laptop com as bochechas vermelhas. O Playstation 3 entrou com a proposta de investir nos gráficos. Renderizando pentagazilhões de polígonos por segundo, a Sony acredita que poderá chegar mais próximo do Real. Uma busca quixotesca por dominar a realidade através de simulacros hiper-detalhados.

O Xbox360 é difícil de dizer. Adiarei sua introdução.

Do outro lado do ringue, o Wii. O monstrinho da Nintendo, portátil no tamanho, de cor clara e design clean, possui nas entranhas um processador e uma placa gráfica que não excedem em muito a potência do seu predecessor GameCube. A interface permite a criação de um bonequinho estilizado para representar o jogador no mundo virtual de forma caricata e meiga. Porém, ao invés de ter joystick tradicional, com seus triângulos e quadrados, o Wii oferece um controle remoto sem fio. Que capta movimentos.

Porra.

Que capta movimentos. Que capta aceleração, força. Que exige que o jogador fique de pé em muitos jogos, se movendo, correndo de lá pra cá. Balançando a mão feito um estúpido. Rebolando (Wario). A pergunta que todos se fizeram: “o que será dos nerds, gordos e sedentários, com suas camisetas surradas do Iron Maiden?”. Na minha humilde opinião, eles comprarão um PS3.

Os jogos. Até agora, a Sony investiu em jogos sérios. Jogos sérios para gente séria. Hardcore gamers. Simulações de Segunda Guerra Mundial. Jogos realistas de corrida. Mais ou menos como o PS2, só que aquele possuía as maravilhosas Exceções, os delírios do Katamari, o lirismo do Shadow of the Colossus. Talvez eles saiam para o PS3. Espero que sim.

E o Wii? Apontado como um console “infantil”, ao molde do GameCube, a Nintendo apostou em mini-games, em jogos que até a minha vó conseguiria dominar, em bizarrices como WarioWare, Rayman Raving Rabbids e Mario Party 8. Oh céus. Isso me lembra a época em que os videogames buscavam divertir e entreter, com seus PacMan & Cia.

Então o gamer é posto em dúvida. Ou ele é sério ou ele busca a diversão. Ou ele segue o fluxo inexorável do cada-vez-mais-real, ou ele vai contra a corrente, ele quebra o joystick e pega um controle remoto sensível ao movimento e dança pelo quarto.

É exagero, talvez, dizer que o PS3 representa a ala neoconservadora. Mas que ele está muito mais para o pólo “autoritário” que o Wii, isso é indiscutível.

A arte abstrata nunca foi bem vista pelo fascismo. Com a chegada dos governos totalitários, havia a necessidade de politizar a estética ou de estilizar a política. Malevich regressou ao pictórico. A Sony é alérgica ao discurso do louco. É alérgica ao homo ludens. Eles querem o real. Eles querem a simulação perfeita. A Nintendo sabe que a seriedade não é sagrada, que a única coisa sagrada é o Jogo. O Jogo esteve aqui antes das religiões. O Wii vai em direção de uma racionalidade primitiva e seu Wii Remote atua como uma varinha de condão para executar magias pagãs. Tudo pode ser negado, Deus pode ser negado, a seriedade pode ser negada, mas é impossível negar o jogo. O Wii é o console sofista. É o piadista, o comediante. O Playstation 3 é o gigante dando discursos inflamados em um palanque.

Não cabe entrar nas “intenções” das empresas. É óbvio que tanto a Nintendo como a Sony buscam dominar o mercado e ganhar dinheiro. São mega-corporações. São capitalistas. O que proponho é analisar os consoles em si, os significantes que apresentam.

Parece-me terrivelmente claro que escolher o PS3 é uma opção conservadora, feita por gamers que temem a mudança. O Wii é escolhido por anarquistas ontológicos. Para ficar na política mais pé-no-chão, pelos libertários, sejam de esquerda ou de direita.

E o Xbox360? Pois é. Ele persegue os gráficos como o PS3, tem uma ojeriza aos pirateadores (XboxLive bloqueou os chippers)… mas uma intuição besta me impede de colocá-lo ao lado do PS3. Se alguém tiver alguma idéia de como classificar o filho da Microsoft, tem o sistema de comentários para isso.

Entretanto, me despeço. Está longo demais para um primeiro artigo. Poderia seguir acumulando outras evidências, outros argumentos, porém parece mais importante no momento apenas jogar gasolina às chamas. Não é à toa que sou dono de um Wii. E o resto eu vejo depois.